Notícias fundação Shunji Sishimura

03/06/2019

A VEZ DO BRASIL

A VEZ DO BRASIL

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Carlos Otoboni

Os números da agricultura brasileira são impressionantes e isso todos já sabem. Nesse sentido, gostaria de trazer alguns fatos que indicam a oportunidade do País para a ciência, tecnologia e inovação na agricultura, o qual chamei de “A vez do Brasil”. O Brasil é, sem dúvida, o líder mundial em agricultura tropical. Nossos cientistas e agricultores foram capazes de adequar áreas que eram não indicadas para a agricultura, como o cerrado brasileiro, em terras altamente produtivas e que colocam o País como um dos líderes mundiais da produção agrícola das principais espécies cultivadas.

No passado, com base somente na análise da fertilidade do solo, o Brasil era classificado, nos mapas para o desenvolvimento da agricultura no mundo, como possuidor de apenas 5% a 9% de terra arável (para o cultivo), ou seja, muito pouco em relação às áreas agrícolas que desenvolvemos atualmente.

Dessa forma, a agricultura brasileira foi capaz de se estabelecer em condições de solo de baixa fertilidade natural, com sérios problemas físicos e químicos para o desenvolvimento das plantas. Aprendeu a conviver e a produzir sob a enorme pressão das pragas e doenças na condição tropical, promoveu a adaptação genética das mais variadas plantas às condições climáticas locais, desenvolveu suas próprias cultivares e formas de produção exclusivas, como também vem incorporando as tecnologias mais avançadas disponíveis na agricultura mundial – como sensores, controladores eletrônicos, computação de máquinas, satélites, imagens aéreas, telemetria e sistemas inteligentes de gestão da produção, com aplicações inéditas em termos mundiais, inerentes à condição brasileira.

A agricultura que realizamos na condição tropical tem uma dinâmica muito diferente daquela desenvolvida nos países de clima temperado. Como exemplo, na condição brasileira as pragas se multiplicam entre as safras e as decisões sobre elas são dependentes dos manejos realizados no passado, em um processo extremamente dinâmico. Em contrapartida, na agricultura subtropical, o inverno promove uma verdadeira limpeza da maioria dos problemas fitossanitários nas áreas de produção, facilitando os manejos futuros das pragas e doenças.

O avanço da agricultura nos trópicos mudou aquela estimativa anterior e hoje verificamos que o Brasil é o único país com condições reais de suprir rapidamente as demandas de alimento futuras, projetadas pelos órgãos oficiais de agricultura e alimentação. E, áreas com potencial para o desenvolvimento e expansão agrícola no mundo estão no continente africano, ou seja, em regiões tropicais como a nossa, o que nos traz um cenário bastante favorável para o desenvolvimento e a transferência de tecnologia, visto que conhecemos a ciência e a técnica para a agricultura tropical no planeta.

Assim, não tenho dúvida de que essa é uma trajetória real e, a não ser que haja alguma alteração abrupta natural ou uma mudança tecnológica muito grande na forma de como a humanidade produz seu alimento, a vez é do Brasil, como sustentador da produção agrícola e como precursor das tecnologias futuras para a ela ser realizada nos trópicos.

Creio que estamos vivendo uma oportunidade única no desenvolvimento tecnológico para as empresas nacionais, como também para as multinacionais, que devem desenvolver tecnologias próprias e adaptar as já existentes às condições brasileiras. E somente podem fazer isso se aqui se instalarem e trazerem sua pesquisa para a condição local. Da mesma forma e pela complexidade e especificidade da atividade agrícola tropical, há um campo frutífero para o aparecimento de novas empresas, como temos visto na área de agricultura de precisão.

O conhecimento científico em agricultura tropical já temos e em grande quantidade. Esse vem sendo acumulado ao longo de décadas nas fazendas e instituições de ensino e pesquisa para a agricultura em todo o território nacional. O desafio que se coloca neste momento é o de transformar esse conhecimento acumulado em tecnologias e inovações para o campo.

 

Carlos Eduardo de Mendonça Otoboni
Engenheiro agrônomo, mestre e doutor em Produção vegetal, pesquisador em Nematologia Agrícola e de Precisão em Proteção de Plantas, professor e diretor da Fatec Shunji Nishimura.
 
Fonte: Revista A Granja - Atuante, Atualizada, Agrícola – Novembro/2017 nº827 Ano 73